"Eu
tomava remédio para pressão e não tomo mais. Emagreci dez quilos com
uma alimentação natural que qualquer um pode fazer em casa", conta o
aposentado Orlando Asse dos Santos.
Não
é milagre. É o resultado da orientação médica, que seu Orlando recebeu
em um posto de saúde de Campos do Jordão, em São Paulo. Tudo de graça,
pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Foi com o médico Alberto Gonzalez,
pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que ele e
muitos outros pacientes começaram a aprender que comida é remédio.
"Há
influências bastante claras na obesidade, na constipação, na inflamação
crônica, na dislipidemia – que é o desequilíbrio do colesterol –, nas
doenças gastrointestinais e respiratórias e no diabetes", aponta Alberto
Gonzalez.
Mas,
afinal, o que é comida viva? A receita é simples: nada pode ser cozido,
frito ou assado. Os alimentos são de origem vegetal. E para começar bem
o dia, um suco poderoso.
Se
uma pessoa que não tem uma doença diagnosticada nem se sente mal
resolver experimentar esse alimento vivo, que resultados vai sentir?
"É
muito importante que eu, me apresentando como médico, diga que alimento
vivo é bom para quem está doente, mas o alimento vivo é uma alimentação
para quem está sadio e quer se manter sadio", esclarece Alberto
Gonzalez.
Decidi experimentar. Em dez dias, que resultados eu veria?
"Em
dez dias, vai haver uma grande liberação de água do seu corpo. Muita
água retida vai ser eliminada. Você também vai notar mudanças no âmbito
da digestão e da disposição, principalmente após as refeições, Você vai
se sentir muito bem disposto", adiantou Alberto Gonzalez.
Doutor
Alberto troca o jaleco pelo avental. Hora de arregaçar as mangas e
mostrar como se prepara o suco. "O grande equipamento é um
liquidificador. Depois de tudo lavado, você começa a fazer o suco.
Primeiro, picota o pepino. O pepino vai para perto da hélice, porque ele
é um grande gerador de água. Aí vem a maçã. Vamos extrair a água do
pepino, da maçã e das verduras orgânicas disponíveis com uma cenoura. E,
finalmente, as sementes de girassol germinadas. Você pode usar só
trigo, girassol, quinoa, gergelim, amêndoa. O ideal é a semente
germinada”, ensina Alberto Gonzalez.
Este
é o grande segredo da comida viva: grãos germinados. E se você já está
se perguntando como vai fazer para conseguir essas sementes, não se
preocupe.
"Em
seguida, coamos. Fica uma massa consistente. É um coador de voal, que
qualquer um pode ter. As pessoas com mais recursos usam uma centrífuga. É
o café da manhã. É bom que seja um copo grande. Tem pão, manteiga, café
e leite, só que em forma natural, viva e repleta de nutrientes vivos",
ressalta Alberto Gonzalez.
Não
é um suco ralinho, parece um leite ou algo muito cremoso. É em um
casarão que doutor Alberto Gonzalez ensina receitas de alimentos vivos.
Alguns pacientes são encaminhados para o local e aprendem que, além do
suco, podem fazer pratos coloridos e saudáveis, como a caldeirada de
frutos do mato.
Legumes
ralados, picadinhos. Basta prensar os alimentos, uma técnica feita com
as mãos, para controlar a temperatura da panela. Afinal, nos chamados
alimentos vivos, legumes e verduras não podem ser cozidos.
"Se
começar a queimar as mãos, tem que desligar. Se não queimar a mão, não
vai queimar os alimentos também", explica uma funcionária do hospital.
“A
carne é uma questão de herança cultural. Eu não vou chegar em uma
aldeia de pescadores e dizer: parem de comer peixe. Comam o peixe, mas
incluam na sua vida os alimentos que vêm da mãe terra. Porque eles vêm
com a informação que você precisa", diz Alberto Gonzalez.
"Não
posso dizer que sou vegetariano. Uma vez por mês eu não recuso um
churrasquinho, mas também não sou escravo da alimentação. Como tudo que
eu gosto, com uma certa regra", conta seu Orlando.
"Sempre
digo que tudo que é verde faz bem para o que é vermelho. Quem está com
doença cardiovascular volte-se para o reino vegetal. Alimente-se de tudo
que é verde possível que a recuperação cardiovascular vem a reboque",
aconselha Alberto Gonzalez.
Em
casa, seu Orlando segue a orientação diariamente e faz questão de
plantar suas verduras: "Eu aproveito qualquer cantinho. Uma
jardineirinha da loja de R$ 1,99, um pouquinho de terra e brota um trigo
bonito".
A
grama de trigo usada no suco nasce de sementes comuns compradas no
supermercado e simplesmente jogadas por seu Orlando na terra. "Todos os
espaços, o quintal do vizinho, por exemplo, eu coloquei trigo há 15 dias
e já está nascendo. Temos couve e outras hortaliças espalhadas no meio
da vegetação. Uso de sete a oito qualidades para fazer o suco por dia",
conta.
Será
que é mesmo tão fácil assim? Nos dez dias em que testamos o suco também
experimentamos a preparação dele, até em cozinhas de hotel. Se eu
consegui, qualquer um consegue.
Mas,
antes, é bom lembrar: estávamos no restaurante de um hotel na cidade
turística de Campos do Jordão, e as tentações estavam servidas. Eram 9h.
Eu jantei no dia anterior, às 20h30. Ou seja, havia mais de 12 horas. O
estômago já estava reclamando. A mesa do café da manhã era farta. Em
vez de optar por tudo o que eu normalmente comeria, fiquei só com as
frutas e o suco verde.
Logo
pegamos a estrada. Acompanhamos doutor Alberto Gonzalez até a casa de
um paciente. A viola dá o tom. O lavrador Benedito Vicente da Rosa leva
uma vida simples. Mora com a mulher no alto de uma colina, em um lugar
onde não tem luz elétrica. Mas sobram ar puro e produtos tirados da
terra sem agrotóxicos. Faltava saber como aproveitar todos os seus
nutrientes. Foi o que seu Benedito aprendeu nas consultas pelo SUS.
Visitas periódicas fazem parte do Programa de Saúde da Família.
Há
um ano, o lavrador mal conseguia ir ao posto de saúde, por causa de uma
trombose na perna esquerda, uma ferida enorme não cicatrizava.
"Estava
muito machucado, era uma ferida só. Tinha um roxo que parecia uma lesão
só. Tomei o suco e fechou tudinho, foi uma beleza. Eu já estava até
desenganado", comemora o lavrador.
Doutor
Alberto Gonzalez explica: "Os vasos da perna dele não chegavam até a
intimidade do tecido, por conta do problema vascular. O suco promoveu o
fenômeno denominado neovascularização, de crescer novos capilares onde
não tinha".
Mas
o médico alerta: "Se você está usando remédios e quer mudar para o
suco, consulte um profissional médico. A pessoa que tem um problema
grave de pressão arterial ou problema grave de perfusão sanguínea do
próprio coração não pode parar de tomar o remédio. Eu trabalho usando
remédios e o suco. Os remédios vão sendo tirados à medida que os
resultados com o suco vão aparecendo. E isso depende da adesão do
paciente".
Seu
Benedito se empenhou de verdade para ver o resultado. Afinal, o que já
seria difícil na cidade grande poderia até ser impossível para quem vive
sem energia elétrica – sem um liquidificador.
"Tentei
socar no pilão, mas espirrou muito. Tive que inventar outro modo. Daí,
foi no ralador. Achei que foi importante", diz seu Benedito, que colhe
os ingredientes, rala e espreme tudo com as mãos. "É um verdadeiro
remédio. A perna sarou que é uma beleza! Não tem mais nada, está forte.
Já estou imaginando até jogar bola. Eu gostava muito de jogar bola.
Fazer isso todo dia é difícil, mas sem esforço ninguém consegue nada".
A
germinação dos grãos é que dá força ao alimento, potencializa os
nutrientes. É o que garante a mais antiga pesquisadora da comida viva no
Brasil, a designer e professora Ana Branco, da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). A primeira semente foi ela que
plantou. Há 15 anos, Ana Branco reúne conhecimentos que ela passa
adiante.
Preste atenção: é o passo-a-passo para você também aprender a germinar as sementes na sua casa.
"Colocamos
a semente de girassol de molho na água. Vamos dormir e a semente vai
acordar. São oito horas de molho na água. É o tempo de dormirmos e ela
acordar. Na manhã do dia seguinte, jogamos a água fora e deixamos
escorrendo em algum apoio por mais oito horas. Depois de oito horas de
molho na água e oito horas no ar, é só darmos uma lavadinha antes de
consumirmos. Podemos olhar o que aconteceu com a semente germinada. Dá
para ver o narizinho que está nascendo. Nesse ponto, podemos consumir.
Assim, comemos a energia vital contida nela. E ficamos forte que nem
ela", diz Ana Branco.
Para
ela, uma filosofia de vida que germinou e deu frutos. Muitos já
aprenderam os segredos da alimentação viva em cursos e em uma feira na
PUC-RJ.
"Nós
começamos com o suco quando eu estava grávida da minha terceira filha.
Meu marido faz o suco, fazemos para a família toda. Isso já acontece há
três anos", conta a professora Rosana Cunha Pinto. "O grande barato é
chamar as crianças para fazerem junto com você. Pede para uma pegar uma
maçã, pede para outra segurar uma hortelã. E assim a gente vai cortando e
preparando o alimento junto".
Eu
bebi suco durante dez dias. E não foi difícil, mesmo fora de casa,
dormindo em hotéis, comendo em restaurantes. Logo no primeiro dia, eu
fiz exames de sangue que mostraram que a minha saúde vai muito bem.
Taxas como colesterol e glicose, por exemplo, estão ótimas. E, por causa
disso, eu resolvi não mudar mais nada na minha alimentação. No almoço e
no jantar, continuei comendo o que estou acostumado e gosto: arroz,
feijão, carne.
Mesmo
assim, substituindo só café da manhã, o suco fez efeito. Perdi 2,1
quilos. Eu também senti outras mudanças que não podem ser medidas. A
primeira: comecei a sentir menos fome nos últimos dias. E a segunda:
mudança no apetite. Já não tenho tido mais tanta vontade de comidas
pesadas. Pode ser resultado do suco.
5 de Set de 2008, actualizado em 12 de Jan de 2009