O alerta veio de um grupo de cientistas norte-americanos e refere-se ao Ad5, vetor utilizado por vários produtores de vacinas para transportar o material genético de forma a induzir uma resposta do sistema imunitário.
Numa carta publicada na revista Lancet, Susan P. Buchbinder, M. Juliana McElrath, Carl Dieffenbach e Lawrence Corey, afirmaram que, há mais de uma década, utilizaram o Ad5 no desenvolvimento de vacinas contra o VIH-1, uma das variantes do Vírus da Imunodeficiência Humana que provoca a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, SIDA.
Durante a fase 2 dos testes clínicos surgiram indícios de que o próprio Ad5 teria tornado alguns homens mais vulneráveis àquela estirpe do VIH.
O Ad5 tem sido o vetor utilizado em pelo menos
quatro vacinas contra o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que provoca a
Covid-19. Uma delas está à beira da fase 3 dos estudos, na Rússia e no
Paquistão.
“Preocupa-nos que o uso de um vetor Ad5 para imunização contra o SARS-CoV-2 possa da mesma forma aumentar o risco de contágio por VIH-1 entre os homens que a recebam”, afirmam os autores da carta.
“A entrega de uma vacina efetiva contra o SARS-CoV-2 poderia ser dada a
populações em risco de contrair o VIH, o que poderia potencialmente
agravar o risco de infeção pelo VIH-1”, escreveram.
“Esta importante salvaguarda deveria ser avaliada em profundidade
antes de quaisquer desenvolvimentos de vacinas Ad5 contra o SARS-CoV-2
e documentos de consentimento informado destes riscos potenciais
deveriam incluir a literatura considerável sobre o contágio com VIH-1
através de vetores Ad5”, recomendam os investigadores.
Ad5 é a sigla de referência da variante inócua de adenovírus recombinado tipo 5 - que poderá, afinal, ser mais perigosa para algumas pessoas do que o antecipado.
Ainda não se percebeu a ligação entre o Ad5 e o possível agravamento da
possibilidade de transmissão do VIH. A vacina da Merck que o utilizava
para prevenir o SIDA foi suspensa.
“O modo como a vacina Ad5 da Merck aumentava o risco de transmissão do
VIH nos [testes clínicos] STEP e Phambili mantém-se nebuloso”, escreveu
John Cohen, na revista Science, em relação ao aviso.
“O editorial da Lancet aponta várias possibilidades, incluindo a
diminuição da imunidade ao VIH, o aumento da replicação do vírus do SIDA
ou a criação de mais células vulneráveis ao vírus”, refere Cohen, o que
permitiria ao VIH disseminar-se no corpo muito mais rapidamente.
Atentos
Buchbinder é professora na Universidade de São Francisco, na California e
dirige a área de pesquisa preventiva do VIH do Departamento de Saúde
Pública da mesma cidade.
O vetor é o método através do qual uma vacina chega
ao alvo. Um dos mais comuns na pesquisa médica é um adenovírus
modificado geneticamente. Os adenovírus causam habitualmente doenças
oculares e do foro respiratório.
Várias das vacinas atualmente em desenvolvimento contra o SARS-CoV-2 usam adenovírus como vetores do código genético das proteínas do coronavírus, para treinar o sistema imunitário a reconhece-lo e a combate-lo.
A maioria destas variantes recombinadas de adenovírus não aumenta os
riscos de contrair SIDA. Mas, já em 2014, o próprio médico imunologista
Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional dos EUA para as Doenças
Alérgicas e Infeciosas, alertava contra a utilização do Ad5 em vacinas a
distribuir em áreas afetadas pelo VIH, sem dúvida por estar a par dos
resultados dos testes referidos acima.
As empresas afirmam estar cientes do problema e garantem ter tomado
providências quanto aos riscos durante o desenvolvimento das vacinas.
A Immunity Bio, que está a testar a sua vacina na Califórnia, antes da
próxima fase marcada para a África do Sul, afirma por exemplo que foram
aplicadas mutações genéticas ao seu Ad5.
Vários testes de vacinas anti-Covid-19 tiveram de ser suspensos devido a casos de reação adversa que, num caso, levou à morte.
por Graça Andrade Ramos - RTP, 22/10/2020
Fonte: RTP
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